
Calceteiros e Poesia- uma poesia calcada –
Sobre a dureza da
profissão de calceteiro deixarei Cesário Verde falar através do seu poema
«Cristalizações».
Uma pergunta
pertinente que se levanta sobre Cesário é o por quê de se preocupar com a vida
dura do povo trabalhador, e neste caso dos calceteiros. Ele que provinha de uma
família abastada e frequentou a Universidade. Uma das causas apontadas é o
momento histórico em que viveu: em 1871, tinha Cesário dezasseis anos, quando
os Internacionalistas espanhóis vindos a Lisboa travam conversações com Antero
de Quental e José Fontana. Delas resultará a criação em Portugal do primeiro
núcleo da Associação Internacional dos Trabalhadores. No ano em que é publicado
«As Causas da Decadência dos Povos Peninsulares», a Internacional de Antero de
Quental, Ramalho Ortigão inicia a publicação de «As Farpas».
Em 1872 o Centro
Promotor dos Melhoramentos das Classes Laboriosas publica um manifesto que
distribui ao país:
«- O operário já não
deve ser como o irracional que soltam do trabalho só o tempo necessário para
dormir e refazer as forças e a que dão somente o alimento indispensável para
não morrer; o operário deve ser um homem com os meios precisos para viver bem,
com espaço suficiente para se instruir e descansar; deve ser um homem no pleno
gozo do resultado do seu trabalho e no uso perfeito das suas faculdades e
direitos…»
Em 1875 aparecem as
primeiras caricaturas de Rafael Bordalo Pinheiro com o Zé Povinho espantado e
embasbacado com a situação ministerial. É interessante notar que o termo
caricatura vem do verbo italiano caricare
(carregar) e começado a ser usado em 1446 e continua actualíssimo em pleno
século XXI.
A vida de Cesário Verde pautou-se sempre pelos
ideais de Igualdade, Fraternidade e Liberdade. O elogio fúnebre do seu grande
amigo e mestre Silva Pinto, escritor que fez as primeiras anotações à sua obra,
discursa emocionado que um dia lhe possa
vir aqui dizer-lhes das vitórias da Justiça absoluta – da Justiça iluminada e
serena; - e espera que vá dizer-lhe as vitórias do Trabalho, da Razão, da
Ciência, da Sinceridade, do Amor: os homens reconciliados, esclarecidos, a
Natureza convertida em Progresso».
Tentarei analisar
«Cristalizações» de Cesário Verde, à luz dos princípios ideológicos que este
autor defendeu na sua época, assim como demonstrar
que
ele é o poeta do quotidiano de Lisboa.
O título do poema e a
dedicatória a Bettencourt Rodrigues, fundador da Secção Fotográfica da Direcção
Geral dos Trabalhos Geodésicos, estão interligados com as preocupações que
Cesário Verde teve para aprofundar geologia e consequentemente aperceber-se das
dificuldades dos calceteiros no partir a pedra, procurar veios que poderiam
tirar o formato de paralelepípedos e no saltar das lascas aguçadíssimas e
cortantes que poderiam ferir a cara e os olhos.
Cesário Verde começa
por localizar o poema no tempo: a Primavera. O provérbio português «Março,
Marçagão/Manhã de Inverno, / Tarde de Verão,» poder-se-à aplicar ao poema. Faz frio. Mas, depois duns dias de aguaceiros/
Vibra uma imensa claridade crua, o poema começa de imediato a falar dos
calceteiros De cócoras, em linha, os
calceteiros, / Com lentidão, terrosos e grosseiros, /Calçam de lado a lado a
longa rua.
De
cócoras porque nem sequer tinham o
banquinho de mestre calceteiro;
Em
linha – os calceteiros têm de
trabalhar em equipa e muitos dos ajudantes eram trazidos da prisão agrilhoados
e teriam que manter forçosamente a fila;
Com
lentidão – devido ao esforço dispendido
e os aguilhoados teriam forçosamente os seus movimentos muito mais lentos do
que os homens libertos, se bem que este trabalho fosse sempre moroso e penoso.
Alguns anos antes do nascimento de Cesário
Verde muitos populares se revoltaram ao ver que a longa fila de homens
agrilhoados ia diminuindo devido ao escasso alimento tomado no local da obra à
vista dos lisboetas.
Terrosos – adquirirem o tom da terra e da pedra ainda por limpar,
quase que fazem parte do próprio solo;
Grosseiros – não se trata de uma grosseria em relação a estes homens
mas antes um libelo sobre a penosa situação em que se encontravam. Para se
chegar a mestre-calceteiro era necessário começar a profissão aos sete ou oito
anos de idade dado que mais tarde as articulações das mãos já não lhes permitia
flexibilidade, tornando-se desajeitadas para o ofício.
A
frialdade exige o movimento; /E as poças de água, como em chão vidrento, /
Reflectem a molhada casaria.
A
frialdade exige o movimento – roupas pouco adequadas
em que o trabalho era a única forma de aquecerem;
E
as poças de água, como em chão vidrento, –
a água reflecte-nos nos olhos como se fora um vidro colocado no chão assim como
nas habitações.
A
molhada casaria – molhada por ter
chovido e por muitas vezes os próprios revestimentos das casas tantas vezes em
mosaico não serem propícias a secarem rapidamente;
Casaria – é interessante notar que esta palavra é pouco vulgar
empregando-se o seu masculino ‘casario’. Casaria são filas de casas tal como os
calceteiros são filas de homens. ‘Casaria’ empregue no final da segunda estrofe
liga-se harmoniosamente a longa rua,
localizada no final da primeira estrofe ficando os calceteiros no meio,
fechados por este cenário.
Casaria
e longa
rua definem bem a extensão do trabalho que está para ser realizado.
Em
pé e perna, dando aos rins que a marcha agita, / Disseminadas, gritam as
peixeiras; /Luzem, aquecem na manhã bonita, /Uns barracões de gente pobrezita
/E uns quintalórios velhos com parreiras.
Cesário burila à maneira de Baudelaire, poeta
que tanto aprecia, a descrição das peixeiras, utilizando sinédoques (toma o
todo pela parte) para destacar elementos mais importantes para o exercício da
dura profissão: pé e perna.
Dando
aos rins que a marcha agita – emprega a metonímia
(causa-efeito) para conseguirmos visualizar o bambolear das ancas que devido ao
peso e à caminhada provoca dores nos rins, começando a estrofe por afirmar: em pé, ligando novamente o pé à
caminhada.
Paralelamente ao trabalho dos calceteiros as peixeiras
com o seu ar gingão e sonoro pregão espalham-se pela cidade dando brilho onde
só há barracões de gente pobre.
Luzem,
aquecem na manhã bonita – Luzem, hipérbole (exagero poético)
sublinhando assim que são elas que dão luminosidade aos seres opacos do
quotidiano; aquecem porque
calcorreiam as ruas vergadas ao peso da canasta (sentido denotativo) e um outro
subentendido (conotativo), aquecem o coração dos homens. A manhã bonita interliga-se também às peixeiras que alegram as manhãs
dos pobres.
E
uns quintalórios velhos com parreiras –
os únicos que podem assistir ao duro trabalho dos calceteiros porque Não se ouvem aves; nem o choro duma nora!
/Tornam por outra parte os viandantes. – ver capítulo Poesia
Calcada, linha 5 e 6.
Não
se ouvem aves; nem o choro duma nora! –
é Verão; Cesário usa esta perífrase como Florbela Espanca o faz para definir o
Verão alentejano.
Nem
o choro duma nora! – muito provavelmente
os poços estavam secos como tantas vezes aconteceu no estio lisboeta. A falta
de água da cidade só foi ultrapassada com D. João V e o ‘seu’ aqueduto.
Tornam por outra parte os viandantes –
Quem pode parte para a sua aldeia ou vai “a
ares”.
E o
ferro e a pedra — que união sonora! — /Retinem alto pelo espaço fora, /Com
choques rijos, ásperos, cantantes.
O ferro dos instrumentos do calceteiro:
pá, picareta, forquilha, baldes (para molhar a calçada), formas para os
desenhos artísticos;
Pedra – basalto ou calcário empregues para
a calçada.
A união áspera dos sons do ferro e da pedra
criam uma harmónica dissonante.
Bom
tempo. E os rapagões, morosos, duros, braços, /Cuja coluna nunca se endireita,
/Partem penedos. Cruzam-se estilhaços. /Pesam enormemente os grossos maços,
/Com que outros batem a calçada feita.
Bom
tempo – A marcha do tempo e dos
calceteiros não pára. Chegámos ao Verão, mas a lentidão e a postura curvada do
corpo continuam.
A expressão hiperbólica partem penedos mostra o trabalho duro e pesado.
Cruzam-se
estilhaços – os calceteiros cortam as
meias-pedras (assim denominadas) na mão, em postura de concha, de uma forma
irregular com a face superior aparelhada saltando as lascas e quase se
entrechocando no ar com as dos outros trabalhadores. Mostra também que o
trabalho não é solitário e que é realizado numa área contígua.
Pesam
enormemente os grossos maços –
é o peso do instrumento e a pressão do trabalhador sobre o maço ou marreta que
faz com que as pedras paralelipipédicas ou hexagonais se enterrem na argamassa.
Com
que outros batem a calçada – frisando novamente
um trabalho colectivo.
A
sua barba agreste! A lã dos seus barretes!/ Que espessos forros! Numa das
regueiras/Acamam-se as japonas, os coletes;/E eles descalçam com os
picaretes,/Que ferem lume sobre pederneiras.
A
sua barba agreste! A lã dos seus barretes!
– Cesário insurge-se muitas vezes ao longo da sua vida, com o número de horas
de trabalho que faz com que os trabalhadores não tenham tempo para cuidar deles
próprios. Assim a barba é descuidada e áspera devido ao pó e a deficientes
lavagens.
A
lã dos seus barretes!/ Que espessos forros! – carapuços também forrados a lã e com um
debrum largo para o suor ser ensopado e não escorrer para os olhos. A admiração
de Cesário em relação aos forros é sublinhada pelo ponto de exclamação.
Numa
das regueiras – antes do empedramento são
rasgados sulcos no solo para posteriormente serem empedrados e a água poder
escorrer.
Acamam-se
as japonas, os coletes – os trabalhadores
dobram as jaquetas e os coletes, colocando-os geralmente em cima de uma pedra,
quase rente ao chão. É interessante notar que este verso liga-se ao da primeira
quintilha seguinte porque japonas
também significa arbustos que ficam acamados em bacelos durante o Outono e
Inverno. Este verso faz a ligação com a próxima estação do ano que irá estar
presente: o Outono.
E
nesse rude mês, que não consente as flores, /Fundeiam, como esquadra em fria
paz, /As árvores despidas. Sóbrias cores!/ Mastros, enxárcias, vergas.
Valadores/ Atiram terra com as largas pás.
E
nesse rude mês, que não consente as flores
(…) As árvores despidas. Sóbrias cores! -
No Outono as árvores perdem as folhas e as cores que elas espalham pelo chão
são verdes escuras e castanhos de vários matizes.
Fundeiam,
como esquadra em fria paz – é de salientar a
comparação entre a inércia da natureza com os navios parados durante o tempo de
sossego.
Mastros,
enxárcias, vergas – Cesário continua a
comparar o trabalho dos arruamentos com a frota de guerra e mais
particularmente com os apetrechos náuticos e a interdependência entre si.
Mastro - a parte que segura as enxárcias e que tem de estar
sempre em posição correcta pois dele depende a navegabilidade.
Enxárcias – cordame de embarcação que aguenta os mastros.
Verga – pau atravessado no mastro onde se prende a vela.
Também no trabalho de calcetaria os homens
usam um pau a prumo ao qual está ligado um fio que indicará o desnível do
passeio.
O pau atravessado como o da verga também é indispensável
porque faz de compasso para a marcação dos desenhos na calçada.
Eu
julgo-me no Norte, ao frio — o grande agente! — /Carros de mão, que chiam
carregados, /Conduzem saibros, vagarosamente; /Vê-se a cidade, mercantil,
contente: /Madeiras, águas, multidões, telhados!
Eu
julgo-me no Norte, ao frio — o grande agente!
É Inverno e duro como são os do norte do país,
esta estação do ano provoca mudanças na natureza e na vida das pessoas.
Carros de mão, que
chiam carregados/ Conduzem saibros, vagarosamente – os carrinhos com as suas rodas nuas de madeira ou
ferradas, produzem um ruído agudo aumentado pelos atritos das ruas e pelo peso
da pedra simples ou britada para os fundamentos dos passeios.
Conduzem
saibros, vagarosamente – o trabalhador
desaparece e o carrinho de mão é personificado, é ele quem conduz as misturas
de areias ou caliças finas que irão tapar os interstícios entre as pedras.
Vê-se
a cidade, mercantil, contente: /Madeiras, águas, multidões, telhados! – o avolumar-se da cidade
é-nos transmitido pelos substantivos gradativos ascendentes, ou seja, estão
descritos num crescendo: começa na madeira e acaba nas casas. O autor usou uma
sinédoque para frisar a parte mais alta do casario e onde escorrem as chuvas:
os telhados.
Negreiam os quintais enxuga a alvenaria;
/Em arco, sem as nuvens flutuantes, /O céu renova a tinta corredia; /E os
charcos brilham tanto, que eu diria /Ter ante mim lagoas de brilhantes!
Negreiam os quintais enxuga a alvenaria; - ciclicamente a chuva regressa e com ela volta-se a
falar dos quintais e das casas abarracadas sem reboco, focando apenas o
material mais importante da casa – a alvenaria; é mais uma vez empregue a
sinédoque: as casas abarracadas interligam-se e reagem com o tempo atmosférico,
não chove e as casas têm a oportunidade de secarem.
Em arco, sem as nuvens flutuantes, / O céu renova a tinta corredia; - o próprio céu
também muda, parece agora pintado de novo, tendo sido retiradas as camadas de
nuvens que o ofuscavam. Essas agora correm noutra direcção.
E os charcos brilham tanto, que eu diria
/Ter ante mim lagoas de brilhantes! – é
interessante notar o paralelismo entre a primavera e o outono. O autor apenas
utiliza sinónimos para a sua descrição.
Primavera: E as poças de água, como em chão
vidrento (segunda quintilha, quarta estrofe).
Outono: E os charcos brilham tanto, que eu
diria /Ter ante mim lagoas de brilhantes!
A
diferença existente é apenas as de figuras de estilo: na primavera ele utiliza
a comparação e no outono a metáfora, ou seja, faz afirmações em relação ao
outono, é mais peremptório, perdeu a timidez inicial.
E engelhem muito embora, os fracos, os
tolhidos, /Eu tudo encontro alegremente exacto. /Lavo, refresco, limpo os meus
sentidos. /E tangem-me, excitados, sacudidos, /O tacto, a vista, o ouvido, o
gosto, o olfacto!
E engelhem muito embora, os fracos, os
tolhidos – a natureza brilha e renova-se
como nos é descrita nos últimos versos, mas o homem vai envelhecendo,
minguando, tema da mudança tão querido a Camões.
Eu
tudo encontro alegremente exacto. /Lavo, refresco, limpo os meus sentidos. /E
tangem-me, excitados, sacudidos, /O tacto, a vista, o ouvido, o gosto, o
olfacto! – Cesário o poeta das sinestesias, mistura as sensações ligadas
aos cincos sentidos.
Na quintilha seguinte continua a mostrar a
interligação quase simbiótica entre a natureza e o seu próprio ser.
Mal encarado e negro, um pára enquanto eu
passo; /Dois assobiam, altas as marretas /Possantes, grossas, temperadas de
aço; /E um gordo, o mestre, com um ar ralaço/E manso, tira o nível das valetas.
Mal encarado e negro – a alegria que lhe vem da natureza é abruptamente
cortada. O calceteiro revela mau aspecto (má cara) e sujo, levando o poeta a
cair na dura realidade.
Dois assobiam, altas as marretas
/Possantes, grossas, temperadas de aço; - rapagões
morosos, duros braços voltam ao poema, mas agora são as próprias marretas
que se humanizam.
Todo o poema é construído em forma circular.
E um
gordo, o mestre, com um ar ralaço/E manso, tira o nível das valetas. – O Mestre
– o chefe dos calceteiros – é adjectivado com os epítetos de gordo, ralaço
(relaxado e sem pressa). Lento, faz o trabalho mais leve: apenas verifica se os
regos estão todos à mesma profundidade.
Homens de carga! Assim as bestas vão
curvadas! /Que vida tão custosa!
Que
diabo! /E os cavadores pousam as enxadas, /E cospem nas calosas mãos gretadas,
/Para que não lhes escorregue o cabo.
Homens de carga! Assim as bestas vão
curvadas! /Que vida tão custosa! Que diabo!
– Cesário leva-nos ao paradoxo: as ferramentas humanizam-se e os trabalhadores
desumanizam-se e tornam-se burros de carga. A expressão exclamativa que
diabo! Mostra por um lado a desilusão do autor e por outro artimanhas diabólicas
que transformam o Homem em burro…
Povo! No pano cru rasgado das camisas/
Uma bandeira penso que transluz!/ Com ela sofres, bebes, agonizas:/ Listrões de
vinho lançam-lhe divisas,/ E os suspensórios traçam-lhe uma cruz!
Povo! No pano cru rasgado das camisas – agora os calceteiros ficam inseridos no povo sofredor.
Os tecidos mais baratos (pano cru) estão em
farrapos e por dentro desses farrapos encontra-se um ser desfeito como as
roupas.
Uma bandeira penso que transluz! – estabelece-se a relação entre as roupas e a bandeira
dos oprimidos – a da internacional socialista – que vai iluminando os povos;
Penso
– é de notar o verbo no presente do indicativo e na primeira pessoa do
singular, sublinhando a sua opinião, sendo o sujeito subentendido.
Com
ela sofres, bebes, agonizas:/ Listrões de vinho lançam-lhe divisas,/ E os
suspensórios traçam-lhe uma cruz! – o povo desfeito como as suas roupas
refugia-se no vinho; é a sua única consolação, mas também essa o leva à agonia
(morte) que se torna visível nas manchas da roupa que são as suas “medalhas”.
Os suspensórios que prendem a vestimenta têm um formato de uma cruz,
simbolizando o sofrimento da vida que têm de acarretar.
De escuro, bruscamente, ao cimo da
barroca, /Surge um perfil direito que se aguça; /E ar
matinal de quem saiu da toca, /Uma figura fina,
desemboca, /Toda abafada num casaco à russa.
De
escuro, bruscamente, ao cimo da barroca, /Surge um perfil direito que se aguça;
/E ar matinal de quem saiu da toca, - contrastando com os operários que andam
curvados, aparece repentinamente vinda do cimo da encosta uma sombra que se vai
aproximando (aguçando). Apesar de ser noite cerrada, o seu dia ainda vai
começar.
Uma
figura fina, desemboca, /Toda abafada num casaco à russa – no contexto do
poema uma figura fina tem duas leituras: fina por pertencer a uma classe
social mais privilegiada e por ser esguia.
Desemboca – como saída da boca de palco envergando um casaco quente
próprio dos países frios, mas também utilizado como endereço no teatro.
Os olhos lisos como polimento! /Com seu
rostinho estreito, friorento, /Caminha agora para o seu ensaio. – descrição da mulher amada: olhos brilhantes e rosto
magro.
Esta figura feminina quebra a monotonia da
pobreza, mas só por instantes.
E aos outros eu admiro os dorsos, os
costados /Como lajões. Os bons trabalhadores! /Os filhos das lezírias, dos montados:
/Os das planícies, altos, aprumados; /Os das montanhas, baixos, trepadores! – a frágil figura feminina amada que quebrou a monotonia
da pobreza é o contraste em relação ao povo das diferentes regiões do país:
ribatejanos, alentejanos, estremanhos ou transmontanos.
Mas fina de feições, o queixo hostil,
distinto, /Furtiva a tiritar em suas peles, /Espanta-me a actrizita que hoje
pinto, /Neste Dezembro enérgico, sucinto, /E nestes sítios suburbanos, reles!
Espanta-me a actrizita que hoje pinto, /(…) E nestes sítios suburbanos, reles! – a figura
frágil que o surpreendeu muito o fará em relação aos homens que são comparados
a bois espicaçados pelo cio na próxima quintilha.
Porém,
desempenhando o seu papel na peça, /Sem que inda o público a passagem abra, /O
demonico arrisca-se, atravessa /Covas, entulhos, lamaçais, depressa, /Com seus
pezinhos rápidos, de cabra!
Porém, desempenhando o seu papel na peça,
/Sem que inda o público a passagem abra, -
covas, entulhos, lamaçais, depressa! Ela indiferente sente-se em palco e vai
saltitante pelo caminho agreste.
O demonico arrisca-se, atravessa /Covas,
entulhos, lamaçais, depressa, /Com seus pezinhos rápidos, de cabra! – o aguçar de apetites provocados pela actrizita é obra
do diabo.
Tradicionalmente este encontra-se de noite pelos caminhos
e aparece com pés de cabra.
A palavra cabra é pouco lisonjeira quer
como epíteto para uma mulher quer para o próprio Diabo.
Após esta análise exaustiva do poema,
poderemos afirmar que Cesário Verde conhecia muito bem o trabalho dos
calceteiros assim como a dura vida do povo trabalhador.
Acabarei esta parte do trabalho com o destaque
para as duas quadras que popularizou Tony no seu poema «O Calceteiro»:
Lembrai-vos desta arte,
Penso que tem defesa!
Aparece em toda a parte,
Pois ela é bem portuguesa.
Quis sobretudo ser franco,
Fala aberto o coração!
Trabalho o preto e branco,
Sou um ourives do chão.


Pedras, Botas, Sapatos, Sapatões, Ferraduras e
Rodas:
Poucos são
os consensos mundiais, mas este existe: o Homem sempre se preocupou com os caminhos
por onde forçosamente tem de passar, quer para as suas necessidades
quotidianas, quer para se deslocar aos locais de culto, romarias e feiras ou
para investidas bélicas. O corte nem que seja de um caminho secundário provoca
sempre instabilidade junto das populações.
Em
Portugal, quando se fala de vias de comunicação, imediatamente são focados os Romanos;
de facto, eles foram os nossos percursores da Calçada à Portuguesa; criaram as
grandes vias de comunicação espaçosas e duradouras que chegaram até aos nossos
dias apesar de terem sido muito descuradas. Contudo, existe cada vez mais a
preocupação de as conservar, dado que ainda hoje são uma via de ligação para as
populações do interior do país. Um dos exemplos que provocou muita polémica foi
a via que liga o Gerês/Peneda a Espanha e que foi classificada como Património
Mundial.
Uma questão pertinente que se levanta paralelamente à das
vias de circulação é a de como as pessoas se defendem ao pisarem as
pedras duras, a lama, vidros partidos e muitos excrementos de animais.
Lisboa esteve durante
vários séculos inundada por matilhas de cães vadios e atravessada por numerosos
carros de bois que traziam os mantimentos para dentro dos portos da cidade. Os
burros também eram muito numerosos e só deixaram de ter um papel importante a
partir dos anos cinquenta. As vacas leiteiras também calcorreavam a cidade com
os seus donos que vendiam o leite de porta
A ideia que era
preciso proteger os pés, cascos dos animais ou as rodas dos variadíssimos tipos
de transporte esteve sempre presente, as soluções é que foram diferentes
conforme as épocas.
Este tema é bastante complexo para o
investigador dado que apesar da importância desta questão os dados são
relativamente escassos.
Sabemos que os
romanos, os gregos e hebreus utilizavam o cabedal para protecção dos pés e que
os cavalos gregos e romanos tinham uma espécie de cilindros de cabedal atados
por correias de couro.
Em relação à cidade de
Lisboa também não temos muitos dados concretos até ao séc. XVIII, apesar de os
sapateiros de Lisboa terem tido regimento dado pelo Senado desde 1572.
O calçado é
uma conquista do Século das Luzes e vai entrando lentamente na vida das
populações urbanas. São mais uma vez estrangeiros que nos fazem relatos
detalhados, possivelmente por terem uma maior distanciação da população. Nos
livros de Murphy (1789) e de Henry L’Evêque (1814) dão-nos um friso de
personagens populares da Capital, exibindo sapatos coloridos, tamancos,
chinelas de senhora, botas de cano alto, sapatos pretos e botas de canhão para
homens, mas nunca indivíduos descalços. O contraste é flagrante com as zonas
não urbanas pois pastores e camponeses andam descalços.

Na colecção de
estampas denominadas Ruas de Lisboa editada em 1809 e de autor anónimo,
a população trabalhadora da capital aparece em traje completo e apenas três
figuras: o mulato caiador, o moço de fretes e o jovem vendedor de mechas surgem
descalços. A iconografia dos pés nus é relativamente marginal na vida de
Lisboa. Nicolau Tolentino no seu poema satírico «A Função» (1780) fala de uma
dama que deixa o irmão andar descalço em Lisboa:
Irmã, com títulos falsos,
Faz a glória destes
ranchos,
Corre o irmão, c’os
pés descalços
Vendendo em Lisboa
ganchos.
A documentação sobre
este assunto é escassa: o baixo preço unitário do calçado fez com que nos
inventários post-mortem o avaliador de roupa despreza geralmente a informação
destes items, considerando pouco relevante para efeito de partilhas. Apenas
alguns sapatos de senhora, em bom estado de conservação, despertam a
curiosidade dos avaliadores; dado que é o calçado feminino mais elegante e
menos funcional, utilizando matérias-primas valiosas como sedas, velbutes e
cetins, ao contrário do calçado dos homens onde predomina a pele de borrego,
material forte conservado por meio de sebo, mas pouco valioso. É curioso notar
que ainda hoje os sapateiros lisboetas vendem sebo de Holanda para
ensebar as botas de pele mais dura. As botas têm uma predominância dado que
elas são bastante úteis para vencerem as agruras dos caminhos. Já no séc. XII e
XIII havia botas especiais para caça e grandes distâncias.
Nos meados do séc. XV
os nobre usavam botas bem apertadas que para as calçarem necessitavam dos
criados.
No reinado de Luís XI
aparecem botas leonadas pela sua cor ser semelhante à do leão, estendendo-se
esta moda até ao séc. XVI. No séc. XVII vários tipos de botas apareceram para
as diferentes actividades : caçar, pescar, montar, para a cidade e para a corte.
No séc. XVIII existem botas altas específicas para oficiais de cavalaria. A
grande expansão das botas elegantes surge por toda a Europa no séc. XIX e
Portugal não ficou indiferente a esta moda.
Voltemos aos
inventários post-mortem: como já foi referido o avaliador de roupa despreza os
sapatos, mas o ourives não deixa de reparar nos objectos de prata que no séc.
XVIII são postos ostensivamente em cima dos sapatos e são referidas como fivelas
à maltesa. Estas fivelas foram ridicularizadas na literatura de cordel por
Bento Alves Coutinho em 1783 em que os tipos sociais criticados são
principalmente os criados, mestres artífices, logistas, trabalhadores dos
serviços comerciais e profissões mecânicas que têm quase sempre um ou
dois pares de fivelas de prata.
Não é só na literatura
de cordel que aparece a sátira às fivelas dos sapatos. Nicolau Tolentino de
Almeida escreveu em forma de soneto «Retrato de um Peralta» (edição de poesias
1801); desse soneto foco apenas a segunda quadra e o terceto final que é sempre
a Chave de Ouro do poema:
(…)
Chapéu que bem carrega
um mariola,
E que ainda de longe
causa riso,
Casaquinha cortada de
improviso,
Fivela que lhe vem de
sola a sola;
(…)
Eis aqui, sem medir
qualquer pessoa,
Breve cópia de um
mísero peralta,
Que afecta de maltês
cá em Lisboa.
Tolentino
faz mais dois sonetos sobre este tema intitulados «Às fivelas chamadas à
Oh,
quantos mexicanos patacões
E
mareados talheres já sem par,
À
tonta avó o neto vai furtar
De
mofentos decrépitos caixões;
Fundidos
em quadrados fivelões
Para
à Chartres o neto passear,
Traz
nos pés a baixela singular
Que
podia servir em correões.
Capitão
Vento-sul, rico holandês,
Que
de prata subtil pequenos ós
Servem
só de fivelas nos teus pés,
Vem
admirar-te, vendo que entre nós
Traz
o pobre peralta português
Por
fivelas molduras de tremós.
***
Em
curto josezinho rebuçado
Louro
peralta as ruas passeava;
Seus
votos pela adufa lhe aceitava
Um
alvo rosto, um gesto delicado.
O
pai da moça, que era ginja honrado,
E
o caso havia dias espreitava,
De
membrudo caixeiro se escoltava
Com
estoque na mão, chambre traçado.
Fugira
o moço, qual ligeira pela,
Mas
fivelas de marca agigantada
Encalharam
num beco a nau à vela;
Aprendei
mocidade aperaltada;
Pois
se ninguém comprou maior fivela,
Também
ninguém levou maior maçada.
Se Tolentino satiriza
o excesso de adornos nos sapatos, também tem a mesma atitude para quem anda
descalço; surge assim a figura do galego, aquele que está na escala mais baixa
da sociedade lisboeta: anda descalço e mesmo assim dá fiados oo
peralvilha que usa cabeleiras empoadas e que fala sem nada perceber:
Ali se ajunta bando de
casquilhos
A que o vulgo mordaz
chama “rafados”
Alto topete, prenhe de
polvilhos,
Que descalço galego de
fiados;
In «O Bilhar»
A literatura
portuguesa é riquíssima em críticas sociais desde as Cantigas de Escárnio e
Maldizer que aparecem nos Cancioneiros Medievais. Gil Vicente também não foi indiferente
a este aspecto e na farsa «Quem tem farelos?» (1515) Aparício, o escudeiro
pobretana, critica Ordonho, o castelhano, porque Çapatos tens amarelos, /Já
não falas a ninguém.
A cor berrante amarela
também é alvo de troça. Contudo Aparício está descalço Eu má-hora estou
descalço. É de salientar que na época vicentina a palavra descalço tem
duplo significado: sem sapatos e sem dinheiro. A expressão estou descalço
continua com o mesmo significado até à época.
Na «Farsa de Inês
Pereira» (1523) o Moço lamenta-se ao seu amo, escudeiro arruinado, que o
calçado está velho:
Moço – Porém, Senhor,
digo eu
Que mão calçado é o meo
Pêra estas vistas assi.
Escudeiro – Que farei,
que o çapateiro
Não tem solas, nem tem
pele?
Moço – Çapatos me
daria ele,
Se me vós désseis dinheiro…
No «Auto da Alma»
(1518), onde se trava a luta entre o Bem e o Mal, Mestre Gil Vicente põe na
boca de Satanás a sedução da alma pelos seus aspectos mundanais: sapatos vindos
de Espanha.
Diabo: Que vaidades e
que extremos
tão supremos!
Pêra que é essa pressa tanta?
Tende vida.
Is mui desautorizada
Descalça, pobre, perdida
De remate:
(…)
Uns chapins haveis mister
De Valença: - ei-los aqui
Agora estais vós molher
De parecer.
A Ramalho Ortigão não lhe
poderia escapar os sapatos para as suas volumosas «Farpas», criando um
neologismo: sapateta, misto de sapato e pateta. Nas lustrosas e
espalmadas sapatetas dos mesários da Lapa… parecem querer espigar os tacões
encarnados das galantes marquesas contemporâneas de Duberry…
As sátiras ligadas às
botas e sapatos são tantas que a sua recolha alongar-se-ia por páginas e
páginas… talvez esta amostragem aguce o apetite para novos trilhos nesta
matéria, já que sobre a verdadeira história dos sapatos é escassa…
A ilação que poderemos
tirar é que o calçado para o lisboeta é extremamente importante quando grande
parte da população se desloca exclusivamente a pé, percorrendo por vezes
grandes distâncias. Não há outras alternativas para a circulação. Na capital o
sistema de seges de aluguer além de oneroso torna-se pouco prático. Quem quer
alugar um veículo tem de o fazer por um dia inteiro ou por meio dia, o que
desde logo inviabiliza para distâncias curtas. As sages orientam-se
preferencialmente para os transportes entre Lisboa e o termo: Belém, Sintra,
Campo Grande, Caneças.
Entre os finais de
setecentos e meados do séc. XIX as queixas contra o desconforto de seges e
caleches são uma constante dos relatos de viagens. Para minorar o incómodo da
viagem foi criado um sistema de suspensão de caixa por meio de cordame e molas,
que amortecia a trepidação das rodas em contacto com estradas de terra batida
em péssimo estado.
A expressão andar a
tratos de polé retrata os tormentos dos viajantes.
Polé – vocábulo técnico; designa uma roldana por onde passam
os correames que fazem a suspensão. Trato de polé significa um balanço
desagradável da caixa sobre os amortecedores repetida até à exaustão.
Muitos foram os
estrangeiros que fizeram relatos de viagens pouco dignificantes sobre o nosso
país. Viajar era uma das prerrogativas para o europeu culto iluminista, que
englobava a experiência do conhecimento valorizando a observação directa e a
verdade da descoberta empírica (tese defendida por Kant). Esta pedagogia é
posta em prática pelos colégios ingleses no séc. XVIII, não sendo portanto de
admirar que a maior parte dos registos conhecidos sejam de ingleses.
Castelo Branco Chaves
assinalou que o mito novecentista de atraso nacional o complexo de
inferioridade que levou o conceito do povo português como povo decadente se
radica nas ideias defendidas pelos viajantes.
Antero de Figueiredo
na sua obra «Espanha» fala das antigas mala-postas de enorme rodado tiradas
por oito cavalos (…) ferindo lume nas lajes das calçadas, sob a estalaria do
chicote e as exclamações guturais do cocheiro.
Num trabalho sobre Calçada
à Portuguesa, vias de comunicação e seus utilizadores, não posso deixar de
focar também os carreteiros que desde o séc. XIV foram agentes económicos que
asseguraram a circulação interna de mercadorias nas zonas de difícil acesso de
navegação de cabotagem ou ao transporte por rio. É por seu intermédio que
Lisboa se articula economicamente com as zonas mais distantes: os carros de
bois chegam à Capital carregados de produtos por estradas secundárias como a de
Torres Vedras, Sobral de Monte Agraço, Bucelas ou então Mafra e por Belas via
de captação dos vinhos de Traz da Serra. Da região sul vinham
principalmente de Aldeia Galega. Todas estas zonas contribuíram com os seus
produtos destinados ao abastecimento das naus que partiam carregadas de
alimentos para as Grandes Viagens Marítimas Portuguesas.
Adágios sobre carros de bois, Carros
Cantadoiros, perduraram durante séculos. As condições alteraram-se e
arrastaram-nos para o esquecimento, tal como, dantes o
«Carro que acanta a
seu dono avança»
«Mau de carro, pior de
arado»
«Quem seu carro unta,
seus bois ajunta»
«A carro entornado
todos dão de rabo»
enquanto numa versão
mais recente:
«Carro que canta a seu
dono avança»
«Mau de carro, pior de
arado»
«Quem seu carro unta,
seus bois ajuda»
«A carro entornado
todos dão de mão»
Nota: a palavra carrus
ou carrum já era usada pelos romanos.
Descalços e calçados,
apeados e em carruagens, com carros de dois, seis ou oito cavalos, com um ou mais
criados todos eles são representativos do prestígio urbano, dando preciosas
informações para uma reconstrução das diferentes épocas de Lisboa, fazendo
parte da História ao Vivo da cidade.
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Conclusão:
Felizmente
existem ainda muitos exemplares de calçada portuguesa, apesar do seu número ter
diminuído drasticamente. Não será exagero afirmar que por cada nascimento de mais
uma floresta de betão morrem golfinhos, cavaleiros, sereias… são dispendiosas
de
sustentar.
Continuando esta destruição
massiva teremos que ir apreciar os melhores trabalhos ao calçadão de Copacabana, Belo Horizonte, Nova Iorque, Japão, Hawaii
ou mais perto a Liverpool.
Um dos exemplos mais
gritantes é o da ‘nossa sala de visitas’
muitas vezes assim chamada ao Terreiro do Paço. As colunas do cais estão
guardadas algures, os golfinhos que rodeavam a estátua de D. José estão em
nenhures mas a ferrugenta escavadora todos os Lisboetas sabem do seu paradeiro…
está imersa nas águas sujas do Tejo entre as gaiolas de pinho que o Marquês de
Pombal mandou erigir para sustento de Lisboa.
O cimento tem atropelado a
Cidade com a sua monótona cor acinzentada. É a panaceia para todos os males:
existe um velho cais dentro da Praça da Ribeira! Que fazer? De uma boa camada
de cimento protegida por muros de lata de mais de dois metros irá, tal Fénix
renascida, surgir uma Nova Praça da Ribeira. As pedras da calçada já não unem,
como nos tempos áureos em que mestres calceteiros se orgulhavam de nem uma mortalha de arroz caber nos
interstícios. A nova cura chegou! Uma boa camada de cimento e já está!
O cheiro exalado após o
levantamento das pedras provocado pelos gases comprimidos sem respiração também
não é problema grave! Só quem tem de trabalhar na substituição dos canos ou
pisar o pavimento próximo é que os apanha… afinal Lisboa é uma cidade assente
em basaltos…
O palácio do Marquês de
Pombal[2] também ficará muito beneficiado todo construído em
cimento fresquinho, bem mais moderno, poderá ser a alegria de muitos novos
hóspedes nacionais e estrangeiros transformado num hotel de luxo! Cumprem-se os
objectivos hoteleiros! Os turistas ficarão embasbacados pelo Milagre do Cimento
que vai conseguindo transformar uma cidade moderna, incaracterística e
igualzinha a muitas outras…Terão o conforto da monotonia, nem gastarão tanto
dinheiro em películas fotográficas.
Poderão passear
confortavelmente de metropolitano da Baixa a Santa Apolónia, sim porque o
Cimento Milagreiro, funcional como Super Cola 3, lá há-de tapar o buraco aquoso
do Terreiro do Paço…
O Futuro do Cimento é
radioso!
Consciências bem descansadas
poderão rolar por Lisboa sem escolhos…

Legendas das fotografias apresentadas:
Foto
1 – Calçada em Cacilhas, Almada. Foto de Yhonathannah.
Foto
2 – As mesmas obras, fotografia de Luísa Cortesão.
Foto
3 - Trabalhar a preto e branco; fotografia de Luísa Cortesão.
Foto
4 – Jardim da Estrela, foto de Kyry Kyry Island
Foto
4 - Largo de S. Paulo, Lisboa; fotografia de Yhonathannah
Foto
5 - Florão da calçada do Conservatório de Belas Artes
Foto
6 - Praça do Município durante a CowParade, foto de Yhonathannah; http://www.flickr.com/photos/foziber/157921610/
Foto 7 – Tokyo,
fotografia de Flickrsuz; http://www.flickr.com/photos/14941905@N00/333612175/
Nota: as fotografias retiradas das páginas web acima referidas têm permissão dos autores para a publicação neste documento.

Bibliografia:
1. Textos
· Júlio
Castilho «A Ribeira de Lisboa» Vol. IV
Edição C.M.L. – 1964
· Júlio
Castilho «Lisboa Antiga» - Bairros Orientais – Vol. IX e X – revista e ampliada
pelo autor e com anotações do engenheiro Augusto Vieira da Silva – 2ª edição
C.M.L. 1937
· Francisco
Liberato Telles de Castro da Silva «Duas palavras sobre pavimentos» - 1896
· Dr.
Fernando Castelo-Branco «Lisboa vista pelos estrangeiros» - até aos fins do séc.
XVIII. Ed. Academia Portuguesa de História – 1982
· «Portugal,
a Corte e o País nos anos de 1765-1767» - tradução e notas de Castelo Branco
Chaves – Lisboa 1945
· José
Augusto França «Lisboa Pombalina e o Iluminismo» - Bertrand Editora, 2ª edição
Lisboa 1977
· Ferreira
de Andrade «O Livro das Sete Colinas» - Lisboa 1957
· Fialho
d’Almeida «Lisboa Monumental» 1906
· Fialho d’Almeida «Lisboa Galante» - episódios
e aspectos da cidade – 4ª edição – Livraria Chardrom de Lêllo e Irmão Lda. 1927
· Gil
Vicente – Clássicos Sá da Costa – 1962
· Cesário
Verde «O livro de Cesário Verde» - edição revista por Cabral do Nascimento –
Editorial Minerva – 15ª edição Lisboa
· Paulo
Madeira Rodrigues «Tesouros da caricatura portuguesa» - 1856-1928 – 1ª edição
Círculo de Leitores 1979
· Nuno
Luís Madureira «Lisboa luxo e distinção» - 1750-1830; editorial Fragmentos Lda.
– Lisboa – Abril 1990
· Eça
de Queiroz «A Relíquia» - Livraria Lello e Irmão Editores 1945
· Eduardo
Martins Bairrada «Empedrados artísticos de Lisboa» - Patrocínio C.M.Lisboa
· Ribeiro
Christino «Estética citadina» - anotações sobre aspectos artísticos e
pitorescos de Lisboa» - José Ribeiro editor – 1ª edição, Março 1990
· Nicolau
Tolentino de Almeida «O Pícaro e o Satírico» - apresentação, fixação do texto e
notas de José Colaço Barreiros – Edição Felício e Cabral – Porto, Setembro 1997
2.
Imagens
§
Luísa Cortesão, http://www.fotolog.com/luisacortesao
§
Yhonathannah,
http://www.fotolog.net/foziber/
§
Wind Tree, http://www.flickr.com/photos/foziber/
§
Kyry
Kyry Island, http://www.flickr.com/photos/foziber/
§
Revista Cais, nº 10, 1996, http://www.cais.pt/
§
Flickrsuz,
http://www.flickr.com/photos/14941905@N00/
§
Júlio Castilho «Lisboa Antiga» -
Bairros Orientais – Vol. IX e X – revista e ampliada pelo autor e com anotações
do engenheiro Augusto Vieira da Silva – 2ª edição C.M.L. 1937